Armas na Cidade
Kaio P. Arantes
A fumaça subia e o trem passava enquanto Billy Joe voltava pra casa. O jovem caubói gostava de andar por aí, viajar, conhecer lugares. Isso o fazia sentir-se vivo. O que lhe incomodava era seu rosto jovem.
“Como pode um bebê andar por aí sozinho?”, lhe diziam.
“Onde está a mãe dessa criança perdida?”, lhe cuspiam com risadas.
“Calem a boca!”. Billy sabia se virar sozinho e já era um homem. Disso ele tinha certeza.
Abrindo a porta, o jovem caubói sentiu o cheiro do jantar e ouviu o grito de sua mãe.
“Billy, meu menino, é você?”. Era bom estar em casa.
“Seu Billy já é um homem, mãe”, dizia o jovem de cabelos pretos.
“Nada de armas na mesa”, dizia sua mãe, enquanto Billy tirava o cinto e o pendurava na parede. Aquele par de pistolas e uma porção de garrafas vazias eram a única herança que seu pai lhe deixara.
Acordou de manhã bem cedo ouvindo os galos. Dormira mal, lembranças e pesadelos lhe causaram insônia naquela noite. Ajudou a mãe na colheita o dia inteiro e a noite se preparou para visitar a cidade. Billy trocou de roupa, limpou suas botas e penteou seu cabelo preto pra baixo.
“Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”, sua mãe pedia.
“Seu Billy já é um homem, mãe. Posso atirar mais rápido que qualquer um. Mas não se preocupe, eu não atiraria sem motivo!” Dizia rindo e dando um beijo na mãe.
Ao fechar a porta o sorriso desapareceu. Ele não atiraria sem motivo, isso é verdade, mas não quer dizer que ele nunca atirou sem motivo. Em suas andanças, o jovem caubói visitara Reno e lá atirou em um homem só para vê-lo morrer. Foi na beira de uma ferrovia. Sempre que escutava o apito do trem, Billy segura a cabeça e chora.
“Eu já sou um homem agora”, falava Billy, tentando afastar os maus pensamentos.
“Vou para a cidade ver a minha Bárbara! Ela é minha e por ela eu ando na linha!”.
O caminho era quase uma viagem e Billy ia cantarolando.
“I dreamed I held you in my arms when I awoke, dear, I was mistaken...”. A brisa suave beijava seu rosto. A lua iluminava seu caminho. As armas pesavam em sua cintura.
“So I bowed my head and I cried, you are my sunshine, my only sunshine...”. A placa com buraco de bala dizia
“Bem-vindo a cidade de San Quentin”, mas Billy não se sentia bem-vindo. Odiava cada pedacinho daquele lugar. Ali era um inferno. A bagunça vinda das tabernas era ouvida do começo da cidade. Era gritaria, risadas, tiros para o ar, mas o jovem caubói não se preocupava. Um sorriso nasceu em sua face.
“Vou pegar minha doce Bárbara e minha querida mãe e vamos embora desse maldito lugar!”. O rosto da garota da cidade era o que aparecia em seus devaneios.
“Eu já sou um homem”, pensava. Mas as palavras se dissipavam e a voz de sua mãe inundava sua cabeça.
“Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”.
Billy fora de encontro a sua amada.
“Um dia iremos embora daqui! Vamos viver num lugarzinho no meio do nada. Viveremos em paz, minha querida!”. O sorriso que vinha acompanhado de tais palavras morreu ao ver as feições de Bárbara.
“Não seja bobo, Bill! Isso não daria certo. Eu sou uma garota da cidade e você é da fazenda! Viveremos como hoje para sempre ou não ficaremos juntos!”. “Confie em mim! Eu já sou um homem e juntos conseguiremos!”. Billy sempre percebera que seu romance era sem futuro. Ambos eram muito diferentes e o caubói sabia que um dia iria acabar. Acontece que saber disso não fazia com que ele aceitasse isso.
Depois de algumas horas com sua amada, Billy resolvera ir para a taberna. A caminho, um velho bêbado abraçou Billy e o hálito de rum invadiu suas narinas.
“Mas isso é hora de crianças estarem na rua? Onde está sua mamãe? Há!”. Ria e soluçava. Billy o empurrou.
“Eu já sou um homem”. Mas o bêbado, trôpego, já ia embora rindo. Billy tremia um pouco.
“Não posso me assustar assim. Preciso de uma bebida”. Iria aonde os homens vão. Precisava se sentir um homem. Suas mãos tremiam e Billy segurou as armas em sua cintura e fechou os olhos.
“Se concentre, Billy, seu tolo! Foi só um susto! Você sabe quem você é!”. Um vento gélido percorreu seu rosto ao abrir os olhos.
“San Quentin é viver no inferno pra mim!”, dizia enquanto alguns pensamentos machucavam-lhe a consciência. Pensava no homem em Reno, pensava em idiotas como o velho bêbado, pensava no futuro com Bárbara, pensava na sua querida e já velha mãe. Billy tinha medo do futuro e tinha medo de não se tornar o homem que queria ser.
“Ah, mas que besteira! Já sou um homem!”.
Pediu um uísque e mandou pra dentro. Sua mão ainda tremia. De esguelha, viu um vaqueiro ao seu lado com um sorriso cínico, no rosto. Billy não gostou disso. Bateu o dinheiro no balcão e pediu outra dose.
“Esse lugar fede. Isso não é lugar para se viver. Vou me mudar daqui e levar minha mãe comigo. Odeio cada pedacinho desse lugar”, pensava.
“Pelo menos agora sou um homem”. Esse último pensamento saiu em voz alta e o vaqueiro sujo soltou uma gargalhada.
“Beber uísque, foder uma mulher e andar com pistolas prateadas não te faz ser homem, fedelho!”. As palavras do homem se misturavam com as da mãe na cabeça de Joe.
“Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”.
O jovem caubói estava furioso. Cuspiu xingamentos ao vaqueiro que achava graça de tudo. Billy Joe se aproximou e sacou sua arma, mas o vaqueiro foi mais rápido. Uma bala atravessou o peito de Billy. Depois outra. E mais outra. Billy caiu no chão confuso e atordoado enquanto a multidão se juntava para ouvir o seu ultimo suspiro. Nesse momento final, todo o estardalhaço das pessoas era inaudível. A única voz que Billy escutava era de sua mãe.
“Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”.
Resolvi me aventurar e começar a escrever contos. Esse é o primeiro que escrevo para o blog, espero que tenha gostado. Aceito críticas e sugestões nos comentários!
Esse conto foi inspirado nas músicas de Johnny Cash, deixo aqui uma playlist com algumas:
Não sei se vou postar mais contos por aqui. Vou continuar escrevendo, se eu gostar do resultado, mostro para vocês!
Até mais, e obrigado pelos peixes!