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domingo, 6 de março de 2016

[(Mini)Conto] A ignorância é maravilhosa


- Felicidade sempre cheirou-me a estupidez. - disse-me sem cerimônia. - E não precisa faro apurado não. Qualquer um pode perceber. Quem questiona, entende. Quem entende, percebe a sujeira que o mundo é. Ah, os idiotas! Esses sim sabem ser felizes. Quem me dera ser um deles! 
- Já é bem sabido que a ignorância é uma bênção, mas por mais infeliz que eu fosse, não trocaria meu intelecto por sentimento algum. - Eu disse, fazendo uma careta. O sorvete gelou meu cérebro. Ela riu. 
- E você ainda se considera do time dos espertos! Então você seguiria o coelho, Alice? Escolheria a pílula vermelha? Não se engane. As pessoas anseiam por ser enganadas. Cada uma delas, inclusive você. As pessoas amam ilusões. Conte-lhes belas histórias e elas lhe farão rei - Comecei a concordar com ela, mas parei de prestar atenção. Enquanto ela falava, eu via as pessoas do lado de fora da sorveteria. Cada uma delas exibia um sorriso, mas isso não significava que eram felizes. Se não, ou cada sorriso é uma mentira ou uma tentativa de ser feliz. 
-... É quase instintivo. Tá me ouvindo? 
- Claro. 
- Então me diga o que te faz feliz?
- Ler um bom livro. Encher a cara. Encontrar uma garota que me faça rir. Esse tipo de coisa, acho. 
- Exato. O que te faz feliz é fugir da realidade. - Disse ela com um sorriso de triunfo. - Agora vamos embora que já deu por hoje. - Eu ri. - Porque a risada?
- Bem aqui. Agora. Isso é o que me faz feliz. Até amanhã! - Não era intencional, mas fui embora com um sorriso estampado no rosto.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

[Conto] Armas na Cidade


Armas na Cidade
Kaio P. Arantes

     A fumaça subia e o trem passava enquanto Billy Joe voltava pra casa. O jovem caubói gostava de andar por aí, viajar, conhecer lugares. Isso o fazia sentir-se vivo. O que lhe incomodava era seu rosto jovem. “Como pode um bebê andar por aí sozinho?”, lhe diziam. “Onde está a mãe dessa criança perdida?”, lhe cuspiam com risadas. “Calem a boca!”. Billy sabia se virar sozinho e já era um homem. Disso ele tinha certeza.
  Abrindo a porta, o jovem caubói sentiu o cheiro do jantar e ouviu o grito de sua mãe. “Billy, meu menino, é você?”. Era bom estar em casa. “Seu Billy já é um homem, mãe”, dizia o jovem de cabelos pretos. “Nada de armas na mesa”, dizia sua mãe, enquanto Billy tirava o cinto e o pendurava na parede. Aquele par de pistolas e uma porção de garrafas vazias eram a única herança que seu pai lhe deixara.
  Acordou de manhã bem cedo ouvindo os galos. Dormira mal, lembranças e pesadelos lhe causaram insônia naquela noite.  Ajudou a mãe na colheita o dia inteiro e a noite se preparou para visitar a cidade. Billy trocou de roupa, limpou suas botas e penteou seu cabelo preto pra baixo. “Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”, sua mãe pedia. “Seu Billy já é um homem, mãe. Posso atirar mais rápido que qualquer um. Mas não se preocupe, eu não atiraria sem motivo!” Dizia rindo e dando um beijo na mãe.
  Ao fechar a porta o sorriso desapareceu. Ele não atiraria sem motivo, isso é verdade, mas não quer dizer que ele nunca atirou sem motivo. Em suas andanças, o jovem caubói visitara Reno e lá atirou em um homem só para vê-lo morrer. Foi na beira de uma ferrovia. Sempre que escutava o apito do trem, Billy segura a cabeça e chora. “Eu já sou um homem agora”, falava Billy, tentando afastar os maus pensamentos. “Vou para a cidade ver a minha Bárbara! Ela é minha e por ela eu ando na linha!”.
  O caminho era quase uma viagem e Billy ia cantarolando. “I dreamed I held you in my arms when I awoke, dear, I was mistaken...”. A brisa suave beijava seu rosto.  A lua iluminava seu caminho. As armas pesavam em sua cintura. “So I bowed my head and I cried, you are my sunshine, my only sunshine...”. A placa com buraco de bala dizia “Bem-vindo a cidade de San Quentin”, mas Billy não se sentia bem-vindo. Odiava cada pedacinho daquele lugar. Ali era um inferno.  A bagunça vinda das tabernas era ouvida do começo da cidade. Era gritaria, risadas, tiros para o ar, mas o jovem caubói não se preocupava. Um sorriso nasceu em sua face. “Vou pegar minha doce Bárbara e minha querida mãe e vamos embora desse maldito lugar!”. O rosto da garota da cidade era o que aparecia em seus devaneios. “Eu já sou um homem”, pensava. Mas as palavras se dissipavam e a voz de sua mãe inundava sua cabeça. “Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”.
  Billy fora de encontro a sua amada. “Um dia iremos embora daqui! Vamos viver num lugarzinho no meio do nada. Viveremos em paz, minha querida!”. O sorriso que vinha acompanhado de tais palavras morreu ao ver as feições de Bárbara. “Não seja bobo, Bill! Isso não daria certo. Eu sou uma garota da cidade e você é da fazenda! Viveremos como hoje para sempre ou não ficaremos juntos!”. “Confie em mim! Eu já sou um homem e juntos conseguiremos!”. Billy sempre percebera que seu romance era sem futuro. Ambos eram muito diferentes e o caubói sabia que um dia iria acabar. Acontece que saber disso não fazia com que ele aceitasse isso.
  Depois de algumas horas com sua amada, Billy resolvera ir para a taberna. A caminho, um velho bêbado abraçou Billy e o hálito de rum invadiu suas narinas. “Mas isso é hora de crianças estarem na rua? Onde está sua mamãe? Há!”. Ria e soluçava. Billy o empurrou. “Eu já sou um homem”. Mas o bêbado, trôpego, já ia embora rindo. Billy tremia um pouco. “Não posso me assustar assim. Preciso de uma bebida”. Iria aonde os homens vão. Precisava se sentir um homem. Suas mãos tremiam e Billy segurou as armas em sua cintura e fechou os olhos. “Se concentre, Billy, seu tolo! Foi só um susto! Você sabe quem você é!”. Um vento gélido percorreu seu rosto ao abrir os olhos. “San Quentin é viver no inferno pra mim!”, dizia enquanto alguns pensamentos machucavam-lhe a consciência. Pensava no homem em Reno, pensava em idiotas como o velho bêbado, pensava no futuro com Bárbara, pensava na sua querida e já velha mãe. Billy tinha medo do futuro e tinha medo de não se tornar o homem que queria ser. “Ah, mas que besteira! Já sou um homem!”.
  Pediu um uísque e mandou pra dentro. Sua mão ainda tremia. De esguelha, viu um vaqueiro ao seu lado com um sorriso cínico, no rosto. Billy não gostou disso. Bateu o dinheiro no balcão e pediu outra dose. “Esse lugar fede. Isso não é lugar para se viver. Vou me mudar daqui e levar minha mãe comigo. Odeio cada pedacinho desse lugar”, pensava. “Pelo menos agora sou um homem”. Esse último pensamento saiu em voz alta e o vaqueiro sujo soltou uma gargalhada. “Beber uísque, foder uma mulher e andar com pistolas prateadas não te faz ser homem, fedelho!”. As palavras do homem se misturavam com as da mãe na cabeça de Joe. “Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”.
  O jovem caubói estava furioso. Cuspiu xingamentos ao vaqueiro que achava graça de tudo. Billy Joe se aproximou e sacou sua arma, mas o vaqueiro foi mais rápido. Uma bala atravessou o peito de Billy. Depois outra. E mais outra. Billy caiu no chão confuso e atordoado enquanto a multidão se juntava para ouvir o seu ultimo suspiro. Nesse momento final, todo o estardalhaço das pessoas era inaudível. A única voz que Billy escutava era de sua mãe. “Não leve as armas para a cidade, filho. Deixe-as em casa”.

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Resolvi me aventurar e começar a escrever contos. Esse é o primeiro que escrevo para o blog, espero que tenha gostado. Aceito críticas e sugestões nos comentários!
Esse conto foi inspirado nas músicas de Johnny Cash, deixo aqui uma playlist com algumas:


Não sei se vou postar mais contos por aqui. Vou continuar escrevendo, se eu gostar do resultado, mostro para vocês!
Até mais, e obrigado pelos peixes!
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